CARTA ABERTA A EDISON DO BEM E OUTRAS REFLEXÕES

CARTA ABERTA A EDISON DO BEM E OUTRAS REFLEXÕES

PRIMEIRA PARTE,

Edison,

Seu texto prima pela objetividade. Direto a quem de direito pode fazer alguma coisa, se realmente quiser, e atacando pontos essenciais de nossa luta.

Nos escândalos que pululam em outras áreas, não conhecemos com exatidão os detalhes que dormem por trás dos fatos vindos à tona. Em nosso caso, é diferente. Nossa percepção aqui é mais profunda, porque somos a parte prejudicada do sistema. Por tudo isso, a indignação que instiga lutadores como você e o Marcos Cordeiro não pode ser reprimida. Vocês conhecem bem as raízes ocultas dos problemas. Se não há quem tome providências para apurar o que ocorre nos porões de instituições sustentadas por nossas economias, banalizando distorções inaceitáveis e ignorando convenientemente nossas reclamações, pelo menos ninguém ouse calar nossa boca.

A atual chefe do Executivo da República pode até merecer o nome de Excelência, se continua na direção tomada na limpeza por ela mandada proceder em seus ministérios infectados. Lembremo-nos aqui, no entanto, dos dois últimos presidentes, acobertando irregularidades em suas administrações coniventes – um deles dando sumiço em pastas comprometedoras, comprando votos para o instituto da própria reeleição e forçando a PREVI a trocar de consórcio na questão da Vale. Maravilhas de mau exemplo de uso do poder! O outro também deixando de agir com firmeza em momentos igualmente decisivos. Ainda que tenham seus méritos, acabaram deixando manchas indeléveis em suas passagens pelo trono. Fazem justiça, então, ao título de Excelência que os gramáticos recomendam para os ocupantes do maior cargo político existente? A dignidade de Excelência somente deveria ser concedida a quem a merecesse de forma inequívoca, a partir de seu trabalho convincente, inegável e, sobretudo, completo.

Que a atual presidente escutasse o clamor de nossa insatisfação, seria logicamente esperável, na esteira de seu ânimo investigativo em outras áreas. No entanto, quem diria (?), os trabalhos cuidadosamente elaborados e devidamente protocolados no templo maior do poder foram parar justamente na toca da amiga da onça!

Estamos diante de mais uma administração insensível aos clamores dos desassistidos da PREVI? Sim. Estamos. Não haja dúvida. No entanto, é preciso lembrar à Presidência da República, e a todos os homens e mulheres do poder, que nunca vai parecer publicamente boa a fé de quem se “cumplicia com o mal feito”. Por isso mesmo, à senhora presidente, convém perguntar se não lhe seria um bom destino enfiar-se corajosamente entre a pressão de seu partido e a força do direito do já quase poderoso exército dos cabeças brancas.

E permita-me aqui, caro Edison, aduzir um recado à respeitável destinatária de sua excelente correspondência:

Faça isso, Senhora Presidente. Complete seu trabalho. Proclame sua independência irrestrita em relação a esse câncer que consome as vísceras de nossas melhores construções, em todo o país, como era a obra de milhares de trabalhadores incansáveis, envelhecidos no exercício de uma profissão honesta, que serviu de exemplo e de sonho de realização profissional a gerações de brasileiros. Faça isso, Senhora Presidente, não só neste caso dos aposentados e pensionistas da PREVI, mas no de todos trabalhadores brasileiros que cumprem dignamente o dever cívico de trabalhar, trabalhar e trabalhar… não para assistir, em seus tempos de descanso, à derrocada da virtude e da ética, nas mãos dos poderosos; mas até ver este país consagrado como uma das grandes potências que talvez o mundo ainda não tenha conhecido: uma potência de paz, de harmonia, de trabalho honesto e cidadania consciente, “… um país que com o mal feito não se cumplicia jamais e que tem na defesa da moralidade e no combate à corrupção uma ação permanente, inquebrantável…”, conforme suas próprias palavras. Faça isso, Senhora Presidente, e tenha seu nome inscrito no pedestal heroico em que poucos administradores públicos podem hoje figurar: o memorial dos grandes e verdadeiros estadistas.

No Banco do Brasil, como no país inteiro, existe um contingente enorme de homens e mulheres incorruptíveis, carentes apenas de uma liderança forte no comando de uma grande cruzada pelo estabelecimento definitivo da dignidade nacional. Mas a coisa ainda vai mal, Senhora Presidente. E isso pode comprometer seus objetivos. Nunca se viu tamanha inversão de costumes, direitos, responsabilidades e tudo mais que diga respeito à construção de um Estado de Direito autêntico e não a de mais uma Casa de Mãe Joana, a que a cobiça e o oportunismo dos mal intencionados podem nos direcionar.

Desculpe-me, Edison, seu post não carece de complementação. A intenção é apenas solidarizar-me com você.

Paulo Motta.

(CONTINUA)

  1. #1 por Marcos Cordeiro de Andrade em setembro 10, 2011 - 8:44 am

    É deveras lamentável que os indignados sejam pobres. Notadamente estes que têm a coragem de se indispor com o Poder constituído por nós, também lamentavelmente. O grito de indignação é gratuito. Mas conseguir que ele ecoe na Sociedade tem um preço alto, muito além das possibilidades de quem se dispõe a denunciar desmandos de toda sorte, perpetrados contra as áreas dos serviços destinados à nação pobre e necessitada – porque somente a Nação Rica tem a proteção do Estado, ainda mais se o Poder foi aparelhado para isto.
    Para gritar basta ter sensibilidade e coragem. Mas para conseguir o megafone da mídia é preciso ter dinheiro, muito dinheiro, pois ele parece ser de ouro cravejado de brilhantes. E, como não o temos, até porque nos roubaram, resta-nos emitir nossos gritos nos espaços gratuitos da internet, como este que o Colega Paulo Motta nos disponibiliza. Usemo-lo, pois. Sem dó nem piedade.
    Aqui não se paga para gritar!

  2. #2 por Ricardo Annoni Neto em setembro 10, 2011 - 11:25 am

    Gostaria de saber porque escândalos menores (Ministérios da Agricultura e dos Transportes) que atingem valores em torno de R$ 700 milhões, insignificantes se comparados ao rombo em nossa PREVI, estão diariamente nos jornais, revistas e TV, enquanto ninguem se lembra dos 7,5 bi doados ao Banco do Brasil, fato constantemente divulgado pela Internet e que não é mais nenhum segredo. Trata-se com muito rigor alguem que rouba alguma coisa para comer e ficam impunes esses responsáveis pelos maiores trambiques financeiros. Em tempo: não estou querendo justrificar ou aceitar o que ocorre nos Ministérios mas apenas comparando a diferença de tratamento nos dois casos.

  3. #3 por Paulo Motta em setembro 11, 2011 - 12:20 am

    Marcos e Ricardo,

    Um fato que sempre me intrigou é justamente esse ponto em que seus comentários se tocam. Por que a imprensa não cai em cima dessas barbaridades que se cometem contra os fundos de pensão? Marcos esclarece serem os custos exorbitantes que inviabilizam espaço para nós. Certo. Mas isso no caso de publicações pagas. Em se tratando de correspondências de leitores e matérias produzidas por iniciativa dos próprios veículos de informação, que razões seguram a mão e a boca de seus profissionais? Essas histórias que se multiplicam em torno dos superavits, por que não merecem interesse no mundo da informação? Afinal, quem ou o quê trava tudo? A voz do poder? A grande imprensa nunca morreu de amores pelos funcionários do Banco. Logo, não lhe interessam muito os problemas que nos afligem. Mas essa mesma alta porção da mídia também não é chegada à defesa do BB como estatal. Tão pernicioso quanto o estatismo exarcebado é o liberalismo sem limites. Não seja o Estado nem mínimo nem máximo, senão médio. No entanto, o que interessa aqui é o conhecimento da causa pela qual não se esmiuçam os bastidores dos fundos de pensão, em busca das artes que se ali se cometem. Ao governo, é claro, a divulgação do assunto não interessa. Mas como o imperialismo petista pode segurar as rédeas da imprensa liberal, anti-esquerda? Confesso-me incapaz de compreender isso.

    Paulo Motta.

  4. #4 por Ricardo Annoni Neto em setembro 11, 2011 - 1:39 pm

    Mas será que nem os partidos de oposição se interessam por essa denùncia ? Não acredito que eles ignorem o assunto.

  5. #5 por Paulo Motta em setembro 11, 2011 - 7:21 pm

    Ricardo,

    Aí, você tocou em um ponto interessante. É o caminho.

    Paulo Motta.

  6. #6 por JOSE ADMIR DE PAULA em novembro 14, 2011 - 4:45 pm

    Não creio que a sociedade ficará indiferente ao tomar conhecimento de que foram transferidos, ao arrepio da lei, mais de sete bilhões de reais da Previ para o BB. O povo cobrará satisfações dos partidos de oposição sobre isso, e estes pressionarão o Governo. É a lógica.

    Ora, se por setecentos milhões, importancia bem inferior, a presidente Dilma tá demitindo gente do primeiro escalão do seu governo, imagine o que fará com membros de terceiro escalão manejando 7,5 BILHÕES DE REAIS.

    Portanto, insisto: nossa maior arma é a DENUNCIA. E o melhor meio é a IMPRENSA.

    E a hora é essa!!!.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: